Como usar a inteligência artificial para validar traduções

A inteligência artificial (IA) pode ser uma grande aliada do tradutor — desde que usada com critério. Mais do que “traduzir”, ela pode servir como uma ferramenta poderosa de validação terminológica e conceitual.

Em um post anterior, expliquei que é importante usar o ChatGPT com cautela. Neste artigo, mostro um exemplo real envolvendo um termo jurídico comum em documentos brasileiros: “reconhecimento de firma“.

O problema: quando a tradução literal não basta

Ao traduzir uma procuração (Power of Attorney), deparei-me com a seção intitulada “RECONHECIMENTO DE FIRMA”, acompanhada de um texto em que o tabelião declara que:

  • o signatário compareceu pessoalmente,
  • apresentou documento de identificação, e
  • confirmou que a assinatura é de sua autoria.

Minha primeira solução foi traduzir como:

SIGNATURE NOTARIZATION

Mas algo parecia impreciso.

Uma sugestão plausível — mas problemática

Ao discutir o termo em um grupo de tradutores, alguém sugeriu:

NOTARY CERTIFICATE

À primeira vista, a expressão parece adequada. No entanto, isso levantou uma dúvida importante:

“Certificate” não se refere a um documento separado que seria anexado à procuração?

Com isso em mente, pensei em mudar a traducão sugerida para notary certification, mas, por algum motivo, minha intuição me dizia que havia uma incompatibilidade entre reconhecimento e certification. Reconhecimento é um acknowledgment, então a partir daí comecei a pesquisar online.

A pesquisa e a proposta de tradução

Ao buscar referências, encontrei diversas ocorrências do termo acknowledgment no contexto notarial, além de definições legais como esta:

“Acknowledgment” significa uma declaração feita por uma pessoa de que ela executou um instrumento para os fins nele declarados e, caso o instrumento tenha sido executado em caráter representativo, de que a pessoa assinou o instrumento com a devida autoridade e o executou como ato da pessoa ou entidade nele representada e identificada. (Portal da legislatura de Wisconsin (EUA), trad. própria).

Com base nisso, cheguei à seguinte proposta:

NOTARIAL ACKNOWLEDGMENT

Uma busca rápida no Google por “notarial acknowledgment” retornou cerca de 29 mil resultados e 162 mil para a grafia alternativa “acknowledgement”, o que atesta sua popularidade, sem indicar, contudo, sua precisão técnica.

Onde a IA entrou no processo

Nesse ponto, recorri à IA não para “descobrir” a tradução, mas para validar criticamente a solução encontrada.

Apresentei:

  • o termo original (reconhecimento de firma),
  • a descrição do procedimento (comparecimento, identificação, confirmação da assinatura),
  • a citação da minha fonte de referência, e
  • a tradução que eu havia proposto (Notarial Acknowledgment).

A resposta confirmou que:

  • os elementos descritos correspondem ao conceito de acknowledegment no direito notarial norte-americano;
  • a tradução proposta é tecnicamente adequada;
  • alternativas como “notarization” ou “certificate” são genéricas ou imprecisas nesse contexto.

O que a IA realmente fez

Neste caso, a IA não forneceu a solução inicial. O seu papel foi:

✔ validar a equivalência funcional entre os sistemas jurídicos
✔ confirmar a adequação terminológica da solução proposta
✔ reforçar por que outras alternativas eram menos precisas

Em outras palavras, atuou como uma segunda opinião qualificada.

Um detalhe que faz toda a diferença

A análise também destacou uma nuance importante:

no Brasil, o reconhecimento de firma pode ser feito por autenticidade ou por semelhança.

No meu caso, tratava-se de comparecimento pessoal — ou seja, por autenticidade. Isso justifica o uso de acknowledgment.

Clique aqui para ler minha interação com a IA na íntegra.

Boas práticas ao usar IA para validar traduções

  1. Faça sua própria pesquisa primeiro
    A IA funciona melhor como validadora do que como ponto de partida.
  2. Apresente sua hipótese
    Em vez de perguntar “como traduzir?”, pergunte “esta tradução é adequada?”.
  3. Forneça contexto detalhado
    Especialmente em textos jurídicos, o procedimento importa mais do que o termo isolado.
  4. Use a IA como segunda opinião, não como autoridade final
    A responsabilidade continua sendo do tradutor.
  5. Questione respostas — inclusive as da IA
    Validação crítica é parte essencial do processo.

Conclusão

A inteligência artificial não substitui o tradutor — mas pode elevar significativamente o nível do seu trabalho quando usada da maneira certa.

Neste exemplo, a solução não veio da IA, mas foi confirmada e fortalecida por ela.

E isso ilustra bem o seu melhor uso: não como fonte de respostas prontas, mas como ferramenta de validação inteligente.

PS: Pesquisas adicionais confirmam o uso de “notarial acknowledgment” em conformidade com a legislação notarial dos estados do Arizona, Califórnia e Nova York, além de Wisconsin, já mencionado.